quarta-feira, 18 de novembro de 2015

REFLEXÃO SOBRE AÇÕES POLICIAIS E POSTURA DA SOCIEDADE, DA MÍDIA E DOS GOVERNANTES.

No início deste mês de novembro encontrava-me nos Estados Unidos, mais precisamente em Miami no Estado da Flórida quando em um restaurante, (ao meio-dia) observei que uma pequena multidão se aglomerava defronte a um aparelho de televisão. Tal fato chamou–me atenção e passei acompanhar o que estava ocorrendo, percebendo que se tratava do acompanhamento pela reportagem de uma “perseguição” policial a um delinquente que se encontrava em fuga após roubar um veículo.
Tal “perseguição”, narrada com muita calma por locutor que se limitava a falar sobre as imagens transmitidas por um helicóptero em tempo real. A ação durou cerca de 40 minutos, sendo todos os “lances” acompanhados atentamente pela mencionada  “plateia” composta por pessoas de todas as idades o que ocorreu durante todo o desenrolar da reportagem. Até pela minha condição e ligação com os temas policiais, permaneci observando atentamente o que ocorria tanto através das imagens transmitidas pela televisão, quanto no ambiente em que me encontrava, justamente para poder analisar todo o cenário e após poder tirar algumas conclusões, já que o assunto me interessava por motivos óbvios (minha ligação com a atividade policial).
Pois bem, diante do que presenciei, então, gostaria de mencionar o seguinte:
1-    A plateia do restaurante que assistindo a ação policial estava visível e ostensivamente “torcendo” pela polícia (não pelo meliante) e pelo sucesso de sua ação, criticando o autor do delito que insistia em não se render, embora houvesse uma imensa quantidade de policiais motorizados o perseguindo;
2-    Na ação havia policiais de várias instituições policiais distintas (várias polícias) face às cores de suas viaturas e dos uniformes que envergavam (quando era possível ver), porém parecia que todos, de certa forma, agiam da mesma forma seguindo o mesmo protocolo (mesma doutrina policial);
3-    Não houve qualquer utilização de arma de fogo pelos policiais que participavam da ação, os quais, repito, limitavam-se a seguir o fugitivo;
4-    Como a ação ocorria principalmente em estradas de trânsito rápido (embora em área urbana) notava-se que a preocupação maior dos policiais era orientar os motoristas para que saíssem da rodovia, deixando-a livre evitando que alguém se envolvesse em acidente e/ou na ação policial;
5-    O apresentador/narrador da televisão limitava-se a dar informação com calma e sem emitir opiniões e/ou realizar prognósticos precipitados do que ocorreria;
6-    O fugitivo a certa altura tentou ultrapassar uma divisão central da rodovia estourando o pneu do veículo em fuga tendo que parar, momento em que os policiais cercaram o mesmo desembarcando e retirando o meliante do carro, algemando-o e colocando em uma viatura, deixando imediatamente do local;
7-    No local permaneceram poucos policiais e em poucos minutos mais um caminhão do tipo guincho chegou retirando o veículo envolvido do local;
8-    Quando a ação se encerrou com a captura do fugitivo a plateia ostensivamente aplaudiu a ação, elogiando a atuação da polícia;
9-    Não demorou mais que 10 minutos e um policial uniformizado (com insígnia nos ombros (uma águia – Coronel para os Americanos) da “State Tropper” – Polícia Estadual da Flórida - cercado por vários policiais de instituições distintas (o uniforme demonstrava isso) concedeu um coletiva repassando todo o ocorrido, mencionando que havia ocorrido um roubo de uma caminhonete por um jovem de 16 anos e que o mesmo já havia sido encaminhado para um “reformatório” pela sua condição de menor de idade. Também mencionou que participaram da ação policial várias polícias locais da região, pelos policiais do gabinete do “Sheriff” do condado e pela Polícia do Estado conforme já mencionado;
10-                      Notei que nenhum político ou autoridade estranha à polícia apareceu ou manifestou-se publicamente sobre o ocorrido, isso ficou à cargo somente de chefes policiais;
11-                      Notei que diante daquela rápida coletiva, pois após sua fala retirou-se do local sem responder perguntas, todos: repórteres, plateia, etc, estavam satisfeito e a aglomeração frente à televisão foi desfeita e todos voltarem imediatamente às suas rotinas.

Fiz questão de realizar a narrativa acima para demonstrar quanto a cultura de um povo pode influenciar positivamente uma ação policial.
Respeito todos aqueles que criticam os “imperialistas” americanos, porém temos é que retirar os ensinamentos necessários visando um dia, quem sabe, “chegar lá”.
Nesta oportunidade gostaria de lançar a reflexão de todos: SE UMA AÇÃO DESTAS OCORRESSE NO BRASIL (aliás, ocorre quase todos os momentos basta assistirmos os “programinhas” de alguns canis dos finais de tarde) como seria a ação da polícia, da mídia, das autoridades e da plateia. Será que seria parecido com o que presenciei e narrei. REFLITAM.
Para finalizar não poderia deixar de mencionar o que assisti nesta data também na televisão (já no Brasil) quanto a fala do presidente da França François Hollande sobre a ação policial, também ocorrida nesta madrugada no sentido de capturar terroristas ligados aos atentados ocorridos em Paris no último dia 13 de novembro de 2015, onde resultou na morte de alguns destes terroristas, prisão de outros e ferimento em vários membros das forças de segurança, disse ele como primeira manifestação: Gostaria de homenagear, agradecer e ressaltar a eficácia e o heroísmo da polícia, chamando aos franceses a colaborar com as forças de segurança que é a garantidora da segurança dos cidadãos. Disse também que cada vez mais o Governo Francês irá ainda mais valorizar e investir nas forças de segurança do País composta pela Polícia Nacional (civil uniformizada) e na Gendarmeria Nacional (militar). A pergunta que fica: Se algo similar ocorresse por aqui qual seria o procedimento de nossos governantes? Outra reflexão.


MARLON JORGE TEZA

3 comentários:

  1. Parabéns pelas observações Coronel Marlon.

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  2. No Brasil, quando a esquerda critica a ação da polícia militar, isso não significa que ela está "torcendo para o meliante". Ela está sugerindo outras formas de lidar com os fenômenos que se manifestam como "perturbações da ordem pública". Esta lógica de enfrentamento simplista (bandido - mocinho) não resolve, mas pelo contrário, perpetua o problema - que é a guerra! O "mal" não vai ser eliminado dessa forma jamais, pois ver o mal como se ele estivesse encarnado no outro, é não ver o mal em si mesmo. A "ordem pública" naturaliza um estado de desigualdade que não precisa, e nem pode, ser aceito. Ela submete pessoas que crescem nas periferias, por exemplo, à inúmeras formas de violência diariamente, já por um tênis, uma roupa e um carro bacana, que um tem, e outro não tem, nem saúde, nem educação, nem comida, nem casa, talvez, por ter sido abandonado pelo pai (o q é comum), e por ter uma mãe viciada em situação de rua. É preciso orientar também a polícia para a possibilidade de arte na relação com x outrx; retirar dela a truculência pra que ela se torne mais sensível às circunstâncias que podem, talvez, levar alguém a tornar-se "bandido". É preciso antes cuidar com esse julgamento, pois ninguém é simplesmente "bandido". O treinamento da polícia não admite este tipo de consideração, que leve à problematização mais ampla de nossa situação social. Não se trata de defender o PT ou qualquer partido, mas de ter em conta que o sistema capitalista é problemático, e que a "ordem pública" precisa ser mudada, muito mais do que preservada à força. Talvez isso pareça cristão demais para vocês, mas é preciso aprender a AMAR também estas pessoas que usualmente a polícia mata e fere como se estivesse prestando um serviço à sociedade. Estas pessoas também são a sociedade! Não é preciso alimentar este estado de guerra, mas investir na possibilidade de relações sociais mais justas e satisfatórias para TODAS as pessoas. É o que propõe o anarquismo quando fala de apoio-mútuo; o mesmo anarquismo com o qual se identificam alguns destes encapuchados "black bloc", que na perspectiva de muitos de vocês são "delinquentes". Na nossa perspectiva, é URGENTE uma ampla mudança sócio-cultural; mudança que já está a caminho. Por favor, considerem, pois para que ela ocorra propriamente é preciso entender que a cultura que se quer alterar compreende a prática de TODAS as pessoas, inclusive as nossas. A crítica pretende a mudança, e se ela existe é porque ela é necessária. Pelo menos para que o diálogo entre diferenças se dê mais propriamente, para as coisas irem se transformando assim, através do entendimento mútuo. A gente precisa aprender a pensar juntos. Não é sensato alimentar esta guerra que já se arrasta há tantos anos. Se eu pudesse indicar uma leitura, eu indicaria algum desses autores da teologia da libertação, como o Rubem Alves ou o Leonardo Boff...ou Tolstói. Seria realmente a libertação se a polícia militar pudesse ler mais amplamente alguém como Tolstói, alguém que, aliás, é mencionado neste texto: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2015/02/1586223-o-fracasso-de-um-modelo-violento-e-ineficaz-de-policia.shtml

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